terça-feira, 26 de Janeiro de 2010

O Papel da Família na Educação da Juventude

O Papel da Família na Educação da Juventude
Dr. António Madeira de Brito Cabral
Cáritas Portuguesa, Lisboa, Portugal

Sessão I
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O Papel da Família na Educação da Juventude
Dr. António Madeira de Brito Cabral
Cáritas Portuguesa, Lisboa, Portugal
beaugeste@sapo.pt

Sessão I
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O Papel da Familia na Educação da Juventude
A história da educação nas sociedades ocidentais está intimamente ligada à construção da
nação, da democracia, do sistema de mercado. Da nação, porque a formação para a cidadania,
com os estados nacionais, passou de um vinculo de cariz religioso ou cultural para a integração
política através do sufrágio universal. Da democracia pelo ênfase dado aos valores da igualdade,
da liberdade e da solidariedade na construção das sociedades liberais. Do sistema de mercado
pela necessidade de aceitação dos modelos de coesão social que implicam o carácter hierárquico
promovido pela socialização escolar, forma legitimadora da mobilidade social existente.
Sobre a evolução das sociedades ocidentais no século XX, um autor contemporâneo (Alain
Touraine) põe em evidência a característica fundamental do processo de modernização. Este
processo sublinha a existência de uma relação entre a produção (cada vez mais associada à
ciência e à tecnologia) e a vida pessoal (ou seja, à libertação do sujeito).
Só que a modernidade, segundo este autor , tem desenvolvido quase exclusivamente o primeiro
aspecto, ou seja, a racionalidade em detrimento do indivíduo e da sua liberdade.
E, como corolário desta tendência de modernidade a preparação para a integração social passou
a ser o objectivo prioritário da educação.
A modernidade pôs, assim, o ênfase nas “funções”, no desempenho de papeis. O “bem”, ou seja
o objectivo último que os clássicos atribuíam à educação, passou a significar uma qualquer
acção que visasse a utilidade social, devendo as várias instituições garantir a funcionalidade do
sistema.
A família, por exemplo, socializava para que a escola viesse a exercer a sua função de educação
formal como preparação eficaz para a vida activa no âmbito profissional.
Mas a crise da homogeneização cultural que caracteriza a evolução das sociedades ocidentais no
século XX, com o fim do conflito entre dois sistemas políticos antagónicos e com a anterior
extinção dos impérios coloniais, veio pôr em causa a estabilidade deste modelo educativo.
Verifica-se um acentuado “défice de socialização” não apenas nas instituições escolares, mas
também nas instituições tradicionalmente responsáveis por esta função.
É um facto que as instituições educativas tradicionais – caso da família e da escola – já não
transmitem os valores e os modelos de coesão social como faziam no passado. E o espaço
deixado vazio pelo referido “défice de socialização” foi ocupado por novos agentes de
socialização (meios de comunicação de massa, em particular a televisão) que não se encontram
vocacionados para formar moral e culturalmente as novas gerações.

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É assim que a nação e a democracia se vêem confrontados com a criação de novos espaços
político/económicos em que se reclama uma maior cidadania e o direito a participar na vida
política, económica ou cultural. Por outro lado o sistema de mercado parece introduzir na nova
ordem internacional um factor de grande polémica mas também de enorme actualidade – o
fenómeno da globalização. Se por um lado a globalização “supera fronteiras geográficas, corroe
os vínculos tradicionais de solidariedade” gerando novas formas de exclusão, solidão e
marginalidade, é indiscutível que também fomenta os valores da abertura, do pluralismo, do
diálogo, configurando um sistema contrário a ideologias fechadas e anti-democráticas como são
as fundamentalistas de qualquer cariz.
Estaremos perante uma sociedade multi-cultural? Não é fácil a resposta, sendo certo que o
objectivo deverá ser a comunicação intercultural em que se verifique o “reconhecimento por
todos do direito de todos”.
Com as mudanças operadas nos sistemas económico, social e cultural instala-se a crise do
modelo educativo que descrevemos, e que deixou de cumprir as funções a que se destinava,
gerando o desemprego, a exclusão social, uma formação despersonalizada e dificultando aos
agentes educativos o exercício da sua função socializadora.
Como diz Touraine “há que deixar de pensar que o indivíduo está ao serviço da sociedade, que
se define pelas suas funções e pela sua contribuição para a vida colectiva , e fazer da
individualização o objecto central da educação escolar ou familiar e do direito”.
Mas que mudanças se operaram na concepção do individualismo na sociedade contemporânea?
Há uma diferença flagrante entre o individualismo do século XIX e o individualismo actual.
Enquanto que no primeiro as pessoas eram levadas aceitar um modelo preexistente ou
preestabelecido e portanto eram induzidas a adoptar um modelo fixo de comportamento em
aspectos cruciais da sua vida quotidiana, o segundo está relacionado com o “estilo de vida” em
que a auto expressão, a liberdade interna, o desenvolvimento da sua personalidade são aspectos
centrais. Donde constituir um credo a pessoa ser ou querer ser livre, ter ou poder optar por uma
forma de vida para si própria.
Claro que a assunção desta filosofia de vida teve reflexos óbvios na própria estrutura da família
e nas suas funções actuais.
Sem pretender generalizar este fenómeno a todas as culturas, a verdade é que na sociedade
ocidental a modernização social promoveu, entre outros aspectos, a introdução da mulher no
mercado de trabalho, a redução no número de filhos, o aumento dos divórcios, do que resultou
uma redução do tempo real que os adultos passam com os filhos.
Estes fenómenos, associados de algum modo à subida do individualismo, provocaram uma
alteração significativa no papel socializador da família.
Por outro lado, a escola tradicional ocupava-se fundamentalmente da socialização secundária
porque era suposto que a família concentrava a sua função na preparação da criança para a sua

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integração social, transmitindo-lhe além dos conhecimentos básicos, um quadro de valores e
regras que iriam constituir o núcleo básico da sua personalidade.
Mas na sociedade contemporânea a criança ocupa a maior parte dos tempos livres em frente da
televisão ou em jogos de computador, deixando para segundo plano a companhia dos Pais,
irmãos, amigos ou mesmo dos professores. Sem nos deixarmos impressionar pelas conclusões
de Popper e Condry que sublinham os perigos para a democracia se não houver um controlo
(leia-se regulação) televisiva, a verdade é que, para além do tempo que a TV retira à leitura e ao
convívio, e o facto de fomentar estados de violência (ou da sua banalização), ela através da
imagem mobiliza emoções, sentimentos e afectividade, introduzindo na socialização do jovem
factores que sugestionam e seduzem o telespectador através da criação permanente de ídolos e
“divindades” (como nas sociedades tradicionais) agora através de telenovelas e espectáculos da
“vida real”.
Assim podemos dizer que na sociedade contemporânea em que os vínculos primários
enfraquecem porque a família já não exerce as suas funções com a força afectiva que tinha no
passado é a socialização secundária que passa a exercer uma influência crescente no plano da
afectividade. Isto porque utiliza (como anteriormente a família e a igreja) gestos, climas
afectivos, tonalidades de voz, promovendo crenças, emoções e adesões totais.
À escola, ou mais concretamente, às formas institucionalizadas do ensino, é pedido, então, um
conjunto de preocupações na formação do desenvolvimento cognitivo, mas também do núcleo
básico do desenvolvimento da personalidade, havendo quem a inclua na categoria da
“instituição total”.
Claro que esta formação integral da personalidade, como tarefa da escola, tem riscos, dos quais
destacamos o que posiciona a escola como uma entidade “neutral”, nomeadamente nas esferas
religiosa, étnica, racial, social ou sexual, e que é uma conquista civilizacional.
Mas também pensamos que a neutralidade face às diferenças não obriga a que a escola
permaneça neutral (eu diria, desinteressada) face a temas, como por exemplo o ensino da
religião. Reconhecendo o melindre dessa área entendemos que não se deverá evitar a
compreensão do fenómeno religioso , e a sua influência na formação e construção de nações
(penso em Portugal, concretamente), nas suas diferentes expressões e dimensão histórica.
Outra área fundamental na formação para a cidadania tem a ver com os valores éticos em que a
responsabilidade, a tolerância , a solidariedade e a justiça devem constituir um núcleo central de
preocupações educativas que não pode ficar ao arbítrio das consciências individuais.
Mas um dos maiores problemas que a escola enfrenta prende-se com o modo de motivar o aluno
a aprender num oceano de sobre-informação e como utilizar e processar a informação
disponível. Ao professor cabe essa difícil tarefa de ser um facilitador e organizador de tão
dispersa e desconexa informação utilizada pelos jovens, incutindo-lhes um espirito critico e não
dogmático apoiado nos métodos científicos e em informação descomprometida. De facto o

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professor não deve transformar-se num novo “sugestionador” ou quem procura “identificações
totais”, mas alguém que no plano epistemológico deve ser relativista, postura que permite
independência, abertura de espirito, ausência de preconceitos e a possibilidade de compreender
valores diferentes daqueles com que nos identificamos.
Convém sublinhar desde já, que no plano ético é impossível ser-se relativista porque significa a
maneira como se quer viver em sociedade, o que implica a necessidade de fazer opções.
Uma crítica também à escola é à utilização pelas práticas pedagógicas do trabalho de grupo.
A preparação para o desempenho de papeis, visando uma correcta integração no tecido social,
exige o reconhecimento da necessidade do trabalho em equipa conducente ao exercício da
solidariedade e ao reconhecimento da diferença do “outro”. A minha experiência docente revelame
um fraco entendimento desta realidade e uma deficiente motivação dos alunos para este tipo
de trabalho colectivo, pois o membro activo pode contribuir com muito de pessoal para a
valorização grupal. Neste sentido as novas tecnologias da educação podem ajudar a fortalecer
os laços de convivialidade no trabalho pedagógico.
Retomando algumas considerações formuladas sobre formação ética, consideramo-la como um
requisito fundamental na formação para a cidadania.
A formação ética do cidadão implica a ideia de responsabilidade na família, na escola, na
empresa, nos vários grupos que compõem a sociedade.
E a socialização, não sendo apenas baseada na lógica da troca de interesses, nem num conceito
abstracto de identidade cultural terá que encarar o outro como sujeito.
Como diz Alain Renaut “é preciso diferenciar com rigor sujeito e indivíduo, humanismo e
individualismo, autonomia e independência”, conceitos que não poucas vezes se confundem e
descaracterizam. “Ora é precisamente a referência aos direitos do sujeito, aos direitos das
minorias como aos da maioria que confere aos novos movimentos sociais uma tão grande
importância” (Touraine).
De facto é importante que os sentimentos de solidariedade e coesão social venham a ser
recuperados de uma forma positiva e que na base da sociedade, nomeadamente em sectores de
excluídos onde se assiste a alguns fenómenos de neocomunitarismo que fundamentam a
protecção dos seus membros em sentimentos de intolerância, de discriminação e exacerbação
dos particularismos, passe a reinar a segurança , a confiança, o sentido de justiça, e se tornem
eles próprios, actores no direito à cidadania, ou seja a participarem na vida política , económica
ou cultural.

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É um facto que a escolha surge cada vez mais cedo no processo de formação da personalidade:
“Ensinar a escolher constitui, pois, uma tarefa importante da educação para a paz e a
democracia” (Tedesco).
E as mudanças educativas dependem da interacção de múltiplos factores que actuam de forma
sistémica, tendo o sistema familiar responsabilidades acrescidas na tomada de consciência de
que, com o desaparecimento das fontes tradicionais da identidade e dos pontos de referencia
culturais, as identidades individuais passam, assim, a ser construídas com maior protagonismo
das pessoas num processo de libertação individual.
O desafio da sociedade, e portanto da educação, é encontrar a articulação entre racionalidade e
subjectividade entre actores sociais e não meros indivíduos isolados.
Estou em crer que é na família moderna, funcionando como um sistema aberto e em interacção
com o seu meio, que a opção por um novo humanismo encontrará a expressão de uma
solidariedade orgânica tão difícil de encontrar nos restantes grupos sociais, mas que se observa
sem artificialismos no grupo familiar.

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